O novo desafio do conforto automóvel
A transição para a mobilidade elétrica, embora celebrada pela sua sustentabilidade, trouxe consigo um efeito secundário inesperado que tem gerado debate entre especialistas em saúde e engenheiros automóveis. A 12 de outubro de 2026, novas análises científicas vieram a público para tentar explicar por que razão um número crescente de passageiros relata episódios de enjoo e mal-estar ao viajar em veículos elétricos (VE), um fenómeno que difere das náuseas tradicionais associadas ao movimento em veículos de combustão.
A ciência por trás do mal-estar
O debate centra-se na forma como os veículos elétricos aceleram e desaceleram. Ao contrário dos motores a combustão, que possuem uma curva de potência mais gradual, os motores elétricos oferecem um binário instantâneo. Esta resposta imediata, combinada com o sistema de travagem regenerativa — que desacelera o carro de forma mais brusca quando o condutor retira o pé do acelerador —, cria uma experiência de condução que o sistema vestibular humano, responsável pelo equilíbrio, tem dificuldade em processar.
Especialistas apontam que a desconexão entre o que o passageiro vê e o que o seu corpo sente é a chave para este desconforto. Quando o veículo altera a velocidade de forma súbita e silenciosa, o cérebro recebe sinais contraditórios, resultando no que é clinicamente conhecido como cinetose, ou enjoo de movimento.
Impacto e pontos de tensão
Este tema tem gerado uma divisão de opiniões. Por um lado, entusiastas da tecnologia argumentam que o problema reside na falta de hábito dos condutores em gerir a travagem regenerativa, sugerindo que uma condução mais suave pode mitigar o problema. Por outro lado, associações de defesa do consumidor e especialistas em ergonomia defendem que os fabricantes devem ajustar os perfis de condução para priorizar o conforto dos passageiros, em vez de apenas a eficiência energética ou a performance desportiva.
Em Portugal, onde a adoção de veículos elétricos tem crescido exponencialmente, o debate começa a chegar às redes sociais e fóruns de automobilismo. Muitos utilizadores questionam se a tecnologia de condução autónoma ou os modos de condução 'eco' serão suficientes para resolver este problema de saúde pública a longo prazo.
O que esperar a seguir
O setor automóvel enfrenta agora o desafio de equilibrar a eficiência da eletrificação com a necessidade de garantir o bem-estar dos ocupantes. Espera-se que, nos próximos meses, as marcas de automóveis comecem a introduzir atualizações de software que permitam uma modulação mais suave da travagem regenerativa, adaptando o comportamento do veículo ao conforto dos passageiros. A questão permanece: será a tecnologia capaz de se adaptar à biologia humana, ou teremos de nos habituar a uma nova forma de viajar?